sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Ti Lepoldo

Ti Lepoldo

Na minha infância, passada na Beira Baixa, ocupava grande parte do meu tempo a acompanhar o Sr. Leopoldo nas suas tarefas na agricultura. Recordo com saudade esses tempos em que andávamos nos campos, lá pelo Bairro do Disco, enquanto traulitávamos uma música da qual somente retenho o nome, A Laranjinha. Note-se que apesar de ter uma irmã, bastante mais idosa, que de resto ainda o é hoje, eu acompanhava o Leopoldo, para, vá-la, lhe dar folga.
O Sr. Leopoldo, carinhosamente tratado por todos por Ti Lepoldo, recebeu em determinada altura na sua exploração agrícola, uma visita dos indivíduos da ASAE . Em jeito de homenagem às minhas origens, o ocorrido vai ser relatado utilizando termos linguísticos tipicamente utilizados por essa altura na minha região. Vá dai, muitos de vós, precisareis de recorrer a um Beirão mais idoso, tipo a minha irmã, para arranjar sinónimos para alguns dos termos.

De madrugada, tocaram à porta. O Lepoldo, estremunhado e meio encarrapato, assomou ao postigo. À beira da porta estava uma cachopa novita, mas asadinha, e um home amode mal-enjorcado. Botou à pressa uma camisola de abafo e foi abrir a porta. Com as pressas, não fechou a portinhola das calças e deu com uma canela na quina da porta. Eram da ASAE e queriam ver a fazenda e o vivo. O Lepoldo mandou-os entrar e deu-se a seguinte conversa:
[Lepoldo] Vou só comer esta malga de sopas e já lá vamos. Atão, vossemecês não querem boer um tinto e comer uma talhada de quejo queimoso. Não tenhais nonjo, tá tudo limpinho.
[ASAE] Não obrigado, já comemos!
[Lepoldo] Se quiserdes, tamém tenho umas regotas com ovo ali na sertã!
[ASAE] ??? Não obrigado, só queremos ver a sua exploração agrícola.
[Lepoldo] Mas olhem que anteonte choveu como quem na entornava…. até caiu uma pancada de pedrisco, tá tudo um lapacheiro. E a vintaneira que faz hoje… Nesses trajes, vós ides arreganhar!
[ASAE] ???
[Lepoldo] Vou botar o garruço e umas polainas e osdepois vamos lá! Impeçamos pelo bácaro que a furda é pertelinho.
[ASAE] ???
[Lepoldo] Cá tá ele! A vienda é só hortaliças, nada de farinhas. Todos os dias lambe a pia de cabulo!
[ASAE] ??? Ah! O bácaro é um porco! Tem o boletim sanitário do animal em dia?
[Lepoldo] Vossemecê está a mangar comigo? Sanitário? Pra quê? Ele caga sempre ali ó pé da pia!
[ASAE] ??? Então para que serve o arame que ele tem no nariz?
[Lepoldo] É o arganel, o alma-do-diabo andava sempre a fossar!
[ASAE] ??? Então e que mais animais tem?
[Lepoldo] Atão, tenho uma dúzia de pitos, oito pitas, seis pedrezes poedeiras, dez marrecos, quatro coelhos e umas cabritas.
[ASAE] Onde estão esses animais?
[Lepoldo] Uns estão no bardo outros no curral. Os marrecos, esses andam à larga.
[ASAE] Vamos então ver as cabras.
[Lepoldo] Cá tão elas, a estrela e a mocha!
[ASAE] Mas está ali outra ao canto… e não deve dar muito leite, pois não? As tetas dela são muito pequenas.
[Lepoldo] Lete? O que tá acapaçado ali na quina é o chibo! Aquilo não é o amojo, são as miudezas!
[ASAE] ??? Posso vê-lo de perto?
[Lepoldo] Atão não pode! Mas olhe que ele aventa consigo!
[ASAE] ???
[Lepoldo] Esteja mas é quêdo! Fuja daí!
[ASAE] ??? Ai! Ai! Ajudem!
[Lepoldo] Catrino, mas que lapada vossemecê levou nas nalgas! Ele é amode esparvoado!
[ASAE] Está tudo bem! Vamos mas é ver a horta.
[Lepoldo] Atão mas a mancar tanto e com esse lanho na mão, assente-se mas é ai nesse tropeço?
[ASAE] ??? Deixe, já passou! Vamos ver a horta.
[Lepoldo] Cá tá ela! Tenho verduras, umas batatitas, sabolas e uns gachitos para fazer a pinga!
[ASAE] ??? Sabolas… onde estão?
[Lepoldo] Estão ali naquele combro, não as enxergam?
[ASAE] ??? Ah, são cebolas! Então e utiliza bombas eléctricas na rega?
[Lepoldo] Ná gasto luz da hidro. Para augar a horta tenho o Pachancho a pitrol.
[ASAE] ??? Então e químicos, utiliza?
[Lepoldo] Só para a barboleta da batata e para as sapatas das couves!
[ASAE] Então e onde guarda os químicos?
[Lepoldo] Tão além no palheiro dentro duma saca plástica atada com uma baraça.
[ASAE] Podemos ver a sua licença para a aplicação dos químicos?
[Lepoldo] Lecença? Arre porra, ná bonda já ter que mercar os remédios!
[ASAE] ??? Vende alguns dos seus produtos?
[Lepoldo] Poi atão, umas verduras e uns chibitos, mas tudo à manha.
[ASAE] ??? À manha? Quer isso dizer que não tem licença para vender os produtos?
[Lepoldo] Poi atão! Tou a ver que vossemecê nem que chegue aos 100 anos se faz home!
[ASAE] ??? Bom, vamos ter que o autuar por venda ilegal de carne e por não possuir licença para aplicação de produtos químicos.
[Lepoldo] Ora esta! É só arrelias!
[ASAE] ??? Quer isso dizer que está então esclarecido?

[Lepoldo] Tá… tá! Botai-vos mas é daqui pra fora, senão levais com este tanganho nas ventas.