quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Entrudo

Entrudo


Ao ilimitado génio criador do Zé Marreco deve-se, entre outras obras emblemáticas, a criação de uma espécie de colectividade designada CROFT (Cooperativa Recreativa Organizadora de Festas e Tainadas). Os sócios da CROFT, na sua larga maioria palermas encartados, além de festas e tainadas, participam também em qualquer tipo de ajuntamento, nomeadamente, greves às segundas e sextas-feiras, manifestações expontâneas, comícios políticos e, caso não sejam convidados, em casamentos e baptizados.
O Zé Marreco, embora pouco adepto de filhós e rabanadas, resolveu envolver este ano a CROFT nos grandiosos festejos de Carnaval da Ribeira de Janeiro, freguesia berço da CROFT. A ideia foi organizar um corso multicultural que inclui-se Matrafonas, Samba, Caretos, Gigantones e uma quadrilha de Zorros. Para Reis do carnaval foram nomeados, sob coação física, os famosíssimos artistas Sabino Rui e Joana Pina. Personalidades cuja ascensão ao estrelato se ficou a dever ao exímio desempenho do Sabino como boi e da Joana como vaca, no presépio vivo dos bombeiros voluntários.
As bailarinas de samba foram cedidas a título de patrocínio pela danceteria Luar Doce. As Matrafonas e os Caretos ficaram a cargo dos sócios da CROFT. Para Gigantone foi empossado o Celso, conhecido em toda a freguesia por reanimar garrafões de vinho, através de respiração boca-a-gargalo.
Todos, incluindo os Reis, foram vestidos com trajes da mais distinta qualidade, quase oferecidos pela luxuosa superfície comercial BAZAR CHINÊS – XIU MIAU. No que toca aos Zorros, por serem uma praga de surgimento espontâneo, o seu ajuntamento foi deixado ao acaso.
Chegada a hora, o Entrudómetro, situado entre a Taberna do Cristo e a casa do Mingacho, estava completamente lotado de esfoliantes e turistas vindos de toda a parte, incluindo dois americanos emigrados na Lua desde 1969. Resistindo a um calor escaldante de 3 graus, a multidão de quase 50 pessoas, aguardava impacientemente o início dos festejos. A segurança, estava a cargo de uma patrulha da GNR coadjuvada pelo Chico Knorr, especialista em escaramuças e churrascos.
Iniciado o corso, tudo corria dentro do planeado. Incluía de tudo, até a sátira política estava presente. Por exemplo, num dos carros alegóricos podia ler-se: “O Presidente da Junta e a secretária andam enrolados” e noutro: “O Presidente só usa o cartão de crédito da Junta no Luar Doce”, enfim, desabafos normais do povinho!
Contudo, no decorrer do cortejo, iniciaram-se as tradicionais rixas de ocasião que inspiraram os Caretos, nomeadamente o seu líder Anacleto, a desatar à lambada a um grupo de fuzileiros mascarados de escuteiros. Consequência de tamanha imbecilidade, o corso ficou privado da participação dos caretos, entretanto internados. Depois, uma desordem de base etílica levou o Tonho João a confundir a Emília Peixeira com uma Matrafona. Vai daí, a Emília, sem estar de modas, aplicou tamanha arrochada no Tonho João que este saiu virado ao Borracheira que conduzia um tractor atulhado de Matrafonas. O tractor dá uma guinada e vai abalroar um pelotão de Zorros. Entretanto, o Gigantone Celso, ao sair da Taberna do Cristo, já convenientemente hidratado, tropeça na soleira da porta e, ao estilo de um míssil balístico, invade o cortejo. Depois de vários ameaços, meteu a quinta e acabou por se espatifar contra o piano de cauda da orquestra filarmónica.
Todavia, a situação só haveria de descambar por completo, quando uns indivíduos do SEF, diga-se, criminosamente, inibiu os amantes do Samba de presenciar o espectáculo desenvolvido pelas desnudadas bailarinas e seus varões. A desculpa para confiscar as bailarinas foi que não sei quê ilegais. A revolta foi total! Os operacionais da GNR presentes no teatro de operações, desprovidos de meios para interagir com a multidão enfurecida, deliberam, por unanimidade, ir beber uma mini. Entretanto, de tudo era arremessado, desde andarilhos, garrafões de vinho vazios e até a mulher do Patolas foi parar ao tejadilho da viatura do SEF.
Enfim, a coisa correu mais ou menos mal! Além de Caretos, Matrafonas e Zorros amassados, o presidente da Junta passou à condição de sem abrigo solteiro, o Luar Doce fechou por falta de stock e a GNR autuou o Anacleto por estupidez agravada e o Celso por excesso de velocidade. Por tudo isto, o Zé Marreco embargou, por tempo indeterminado, a participação da CROFT em todas as celebrações religiosas que envolvam andores ou carros alegóricos.