terça-feira, 9 de agosto de 2016

A alternativa é falecer


A alternativa é falecer

É recorrente no cotidiano ser-se vítima da seguinte observação: “estás a ficar velho!”. Para tal, serve de motivação, por exemplo, a dificuldade em ler letras miudinhas, o reumático que ataca ou, simplesmente, os filhos que cresceram. No meu caso, sempre respondi: ”é a vida!”.
De facto, a alternativa a envelhecer é falecer, coisa que não considero particularmente agradável. Além disso, tal desvario implicaria um forte arrombo no orçamento. Fazem ideia de quanto custa uma coroa de flores? Então e a urna? Isto, já para não falar no talhão destinado à edificação da última morada. Pois é, está tudo pela hora da morte!
Todavia, chegado aos noventa anos, entendo que não foram razões como as apontadas atrás ou, outras ainda, como o surgimento dos cabelos brancos e de rugas que marcaram o início da era do caruncho. Verdadeiramente, os primeiros sinais, surgiram quando comecei a preferir andar só, do que mal acompanhado. De facto, estou hoje convicto que a capacidade para aturar palermas é inversamente proporcional à idade. Igual indicador apareceu quando as mulheres passaram do desprezo, para um modo extra respeitoso e, em alguns casos, até carinhoso. Mais, os piropos, passaram a levar como troco, sorrisos. Estava lixado! Tinha chegado aos 70! Agora sim, estava a ficar velho!
Foi por essa idade que, muito a custo, lá consegui alcançar a reforma. Sim foi difícil! Sempre que estava quase, lá avançava ela mais um ano. Isto, a uns rapazolas de gravata, tenho de agradecer. Os mesmos que, várias vezes, consideraram que era malandro por deixar de trabalhar. Talvez tivessem razão. Afinal, só trabalhei 50 anos. Provavelmente, ainda teria muito para dar ao ofício, isto apesar de já ter a capacidade ocular algo reduzida.
Durante a minha carreira como bandarilheiro, participei em inúmeras corridas, porém, as mais emocionantes haveriam de ser as derradeiras. Recordo uma dessas lides, em que devido a uma lamentável ilusão óptica, apliquei ao corneteiro1 um par de bandarilhas.
1 É comum afirmar-se que a diminuição de um sentido apura outro. Esta poderia ser a explicação pela atracção para com o homem do cornetim. Mas não, uma vez que além da visão, a audição também já era limitada.
Facto que originou tamanha desconsolação no toiro, que teve mesmo de receber apoio psicológico. Ainda assim, fui aplaudido! Para isso contribuiu, a manifestação que decorria no exterior da arena, em favor dos direitos dos animais. Ao que me parece, os defensores dos animais, maioritariamente de quatro patas, não reconhece o talento que alguns possuem no domínio de cravar ferros no lombo de um animal que, nem sequer pediu para ali estar. Claramente, são uns insensíveis, motivo pelo qual não sabem apreciar tal arte!
Sem dúvida, poderia ter continuado a triunfar nas arenas. Mas não, escolhi viver à grande, patrocinado pela pensão de aposentação! Folgado com os quase 300 euros de pensão, os primeiros tempos foram de verdadeira loucura. Comprei uns óculos, um auricular amplificador e uns sapatos ortopédicos2.
2 Fiz um crédito a 40 anos. Como devem calcular, alguém vai levar calote.
Reunidas as condições mínimas, passou a ser só ramboia! Ele era excursões organizadas pela junta, jogatanas no centro de dia, visitas ao centro médico e, às vezes, idas às urgências do hospital. Enfim, era chapa ganha, chapa gasta! Embora que, nos meses em que visitava urgências, sempre amealhava uns trocos. Normalmente, o tempo de espera rondava as 8 horas, pelo que poupava, normalmente, duas refeições.
Para as despesas, contribuía ainda o consumo de drogas. Sim, dessas legais, em que os dealers estão nas farmácias. Agora, apesar de reabilitado, de vez em quando, ainda tenho recaídas. Por vezes, vou para comprar um emplastro e zás, assoma a tentação, acabo por levar uns speeds para a tensão arterial!
Em determinada altura, consciente da necessidade de reduzir despesas, decidi cortar nos bens supérfluos. Deixei de consumir drogas, cortei nas saídas ao médico e alterei o plano de alimentação. Passei a só almoçar às segundas, quartas e sextas. Às terças, quintas e sábados, jantava. Aos domingos, era chá para livrar a tripa dos excessos da semana. Não fora o corpo suplicar pelas drogas e, sugerir o uso de roupa três números abaixo, o plano de poupança haveria sido um sucesso.
Mudando de assunto, hoje, aos noventa, considero que já não tenho nada a perder. Por isso, digo e faço tudo o que apetece. Bom, também não é tanto assim. Para expor o que pretendo, fico sujeito à colaboração da memória. Por vezes, só após muito esgravatar nela, recordo o jantar do dia anterior. Curiosamente, episódios com vinte e, mais anos, continuam fresquinhos. Por exemplo, tenho vivas na memória as palavras proferidas pelo corneteiro antes de ser ferrado com um par de bandarilhas: “Fujam! Ai… Ai… Não as rodes…”. Fazer o que apetece, isso já depende da colaboração da carcaça. Notem que, aos noventa andar a pé sem amparos é, no mínimo, extraordinário. Naturalmente, correr não passa de uma utopia.
Outra característica dos noventa é a escassez de amigos. Não porque se tenha mau feitio, mas porque estes deixaram de envelhecer. Além de triste, esse facto, inviabilizou no meu caso, a iniciação no crime organizado. Em mente, tinha planeado formar uma quadrilha, com interesses no domínio da pilhagem. Notar que, nesta idade, ser meliante, é uma das poucas distracções que integra quase só vantagens. Algumas delas são, por exemplo, a ocupação dos tempos livres, a actividade física, o estímulo mental e, ainda, o retorno financeiro3.
3 Caso existisse, talvez, liquidasse o crédito contraído.
Por outro lado, mesmo que fosse caçado, na improvável, senão impossível, hipótese de ser sujeito a julgamento em tempo útil, uma condenação dificilmente seria cumprida. Ainda que o fosse, era proveitoso, uma vez que, significava que continuava a envelhecer!
Para finalizar, confesso que, por vezes, dou por mim a pensar: “como seria bom voltar a ter setenta anos!”. Parece que tudo no passado era perfeito, tirando o facto de nos trazer o presente. Assim sendo, sugiro que não se lamentem e aproveitem a vida, porque envelhecer é um privilégio e, a alternativa é falecer!