segunda-feira, 17 de julho de 2017

Tantas mulheres pelo mundo...

Tantas mulheres pelo mundo...

Hoje, revela-se aqui um verdadeiro hino ao amor. A balada de que se fala, atira para a mais pura das insignificâncias, essas tretas cantadas por criaturas tipo, James Blunt, Roberto Carlos, Júlio Iglésias, Billy Idol, Onda Choc, etc. Qual, You're beautiful, O calhambeque ou My love is your love, qual quê! O mais penetrante romantismo de que vos falo está escarrapachado no tema intitulado: Tantas mulheres pelo mundo, parte integrante da, não menos que, fantástica cassete intitulada, conjuntos típicos. Infelizmente, os artistas que imortalizaram este tema são até hoje mantidos no anonimato, dado o elevado risco de perseguição por parte da legião estrangeira de fans, nomeadamente a de guerra.
Na interpretação desta obra-prima, além do trovador, surge volta e meia um indivíduo que arremessa umas larachas que, para além de construtivas, são altamente encorajadoras. Exemplos disso são afirmações do calibre: “E agora vais aturá-la!” ou “Tivesse-la matado homem!”.
No que diz respeito à restante letra, esta não se centra nas triviais e habituais lamechices, antes pelo contrário, apoia-se em temas fracturantes como o vinho, a terapêutica da pancada e a rojoada. Além disso, junta ainda alguma paródia, como por exemplo, no excerto em que com a administração de uma pancada o coração se apaga, mas depois, afinal era só a fingir! Muito bom mesmo!
Antes de passar ao justo registo imortalizador da letra é, de todo, inevitável não tecer algumas considerações acerca do refrão: “Tantas mulheres pelo mundo e o inferno sem ninguém, se morressem parte delas davam as almas um vintém!”. Simplesmente soberbo! Reparem, numa singela frase, consegue juntar mulheres, o mundo terreno, o purgatório, a insignificância da existência humana e, ainda, economia.
Numa primeira e, talvez, também em segunda e terceira análise, o refrão possa parecer absurdo e, vá lá, machista! Mas não, através de uma análise mais cuidada, podemos concluir o objectivo é retratar o santo matrimónio! Ou seja, a primeira parte alude para a necessidade de escolher uma mulher entre muitas, ou seja, monogamia. Depois, refere-se à herdade do mafarrico para mostrar o que espera ao homem depois de consumada a boda. Finalmente o trecho “se morressem parte delas…”, pois é, a questão é que o homem normalmente bate-a-bota primeiro, depois de uma vida passada com tostões no bolso!
Posto isto, avancemos, sem medos, para a degustação da inspiradora letra de Tantas mulheres pelo mundo.

Sentadinho à lareira,
com uma grande borracheira,
dizia para mim sozinho:
Isso é o costume!
Vou deixar a minha mulher,
isso mesmo é o que ela quer,
vou deixar de beber vinho!
Não deixes!
Lá andei a sair de casa,
tontinho como estava,
sem saber o que dizia.
Isso era vinho!
Ofereci-lhe pancada,
berrava em altos gritos,
mas a mulher não saía!

Tantas mulheres pelo mundo e o inferno sem ninguém, se morressem parte delas davam as almas um vintém!

Tinha as panelas ao lume,
a cozer rojoada,
devia ser com certeza!
É gulosa!
Eu ia para rapar tudo,
mas ela deitou-me a luva,
saiu-me bastante tesa!
Que vergonha!
Ia a pegar na vassoura,
para me defender dela,
senão estava engolido!
Ai estavas, estavas!
Ao dar um jeito caí,
ela por cima de mim,
estava tudo perdido!

Tantas mulheres pelo mundo e o inferno sem ninguém, se morressem parte delas davam as almas um vintém!

E estava a ver a maneira,
como havia de sair debaixo do poleirão,
Isso era fácil!
dei-lhe uma forte pancada,
que ficou atrapalhada,
e parou-lhe o coração.
Lindo serviço!
Pus-me a dar a dar,
a ver se ele pegava,
e cheio de compaixão.
Isso era manha!
De repente abriu os olhos,
e então num sorriso… olá brincalhão!
Eu não te dizia que isso era manha, estás a ver!
Pois era pá!
E agora vais aturá-la!
Que remédio!
Tivesse-la matado homem!
Isso é que eu fazia bem!

Tantas mulheres pelo mundo e o inferno sem ninguém, se morressem parte delas davam as almas um vintém!

E pronto, ide lá em paz limpar as lágrimas, afinal o amor é lindo!