quarta-feira, 12 de julho de 2017

Patada hídrica

Patada hídrica

Um destes dias, a seguir ao terço, escutei na telefonia uma entrevista dada pelo Dr. Rasteiro Pedal, presidente do Grupo Ecologista os Verde Tinto, à Rádio Latrina. A dita conversa, por sinal muito jeitosa, centrou-se no consumo de água em Portugal.
Ao que parece, cada português consome em média 52 metros cúbicos de água por ano. Todavia, se considerarmos o indicador que expressa o consumo de água envolvido na produção dos bens e serviços que consumimos, designado pegada hídrica, a cada português são atribuídos 2260 metros cúbicos de água por ano, ou seja, aproximadamente 6192 litros por dia! Importa também referir que esta mesma pegada, associada à produção de ração para um cão de médio porte, equivale à quantidade de água despendida na produção de um SUV (Sport Utility Vehicle). Ou seja, para sustentar o binómio homem – cão, é preciso uma carrada de água e um veículo utilitário desportivo!
Na origem de tão descomunal consumo parece estar que, por exemplo, para produzir um quilograma de carne de vaca sejam necessários 15500 litros, para umas calças de ganga 6000 litros, para um quilograma de açúcar 1500 litros, para uma camisola 2900 litros e 110 litros no caso de um copo de vinho. Curiosamente para fazer 1 litro de água, apenas são necessários 1000 ml da mesma!
Se levarmos em linha de conta o preço do quilo da carne de vaca e que o ordenado na maioria dos casos, não permite comprar vestuário por atacado, ficam logo descartados uma porrada de litros de água por dia! Assim, num caso mais modesto, se por exemplo for consumida uma galinha por dia que, comparativamente com a vaca, deve sair ai por uns 500 litros de água, mais uns 1000 litros para umas batatitas e 200 litros para um par de torradas, o consumo per capita situa-se nos 1700 litros, ou seja, apresenta uma folga de 4492 litros, relativamente ao valor médio de 6192 litros por dia. Esta folga, ainda que seja superiormente utilizada no consumo de vinho, jamais poderá justificar o real consumo de água.
No que respeita ao vinho, cabe aqui fazer um parêntesis. O consumo de vinho per capita é da ordem dos 42 litros anuais, ocupando assim Portugal uma honrosa sexta posição a nível mundial. Note-se que a malta do Vaticano, que ocupa a primeira posição, despacha em média mais 10 litros que os Tugas! Mas bom, se considerarmos que um copo leva 0.33 cl, para fazer 1 litro de vinho precisamos de aproximadamente de 330 litros de água. Ora, se a população for de 11 milhões e o consumo médio de 42 litros de vinho por ano, em água corresponderá a 13860 litros, ou seja, 38 litros por dia. Notar que esses 38 litros apenas correspondem a 0.61% do total da pegada hídrica de cada Tuga! Resumindo, pode afirmar-se de forma categórica que o consumo de vinho em pouco ou nada contribui para a avultada pegada hídrica.
Onde será então consumida a restante água? Segundo dados do PNUEA (não faço a mínima ideia do que significa a sigla), o consumo de água em Portugal divide-se pelos três sectores pré-identificados da seguinte forma: sector agrícola (87%), sector industrial (8%) e sector urbano (5%). Ou seja, o grande responsável pelo descalabro no consumo de água é a agricultura!
Neste contexto, resulta claro que medidas urgentes no sector agrícola são indispensáveis para controlar o consumo de água. Além disso, são igualmente úteis outros gestos básicos como sejam, por exemplo, trocar o cão SUV por um papa-reformas, consumir bebidas destiladas sem diluição ou tomar banho apenas trimestralmente, isto caso o aroma o justifique.
Em particular, no sector agrícola, deverá cessar imediatamente todo e qualquer tipo de cultura, seja ela de cultivo ou de nascimento espontâneo. Além disso, deverá ser concedida absoluta permissão para a arte de aplicar fogachadas em todas as espécies da fauna, incluindo gambozinos. Estarão agora a pensar… mas isso não será uma utopia? Afinal, assim não restaria nada para comer! Descansem, não só é possível, como já se encontra em marcha um projecto-piloto nesse sentido, tal como noticiado no Correio da manhã em 5/06/2017.

Casal com dois filhos come apenas três vezes por semana
 
Camila e o marido dizem alimentar-se pela "energia do universo". Casal diz não sentir fome. Um casal que vive entre a Califórnia e o Equador come apenas três vezes por semana e diz ser alimentado pela "energia que existe no universo". Akahi Ricardo, de 36 anos, e Camila Castello, de 34, têm dois filhos e afirmam que sobrevivem a comer caldo de vegetais ou uma fruta três vezes por semana. O casal diz ter esquecido a fome. "Os seres humanos podem facilmente estar sem comida, desde que estejam conectados à energia que existe em todas as coisas e através da respiração", afirma Camila ao Daily Mail.
A mulher diz sentir-se mais saudável e mais feliz. O casal dá cursos de como viver sem comer e com a energia do universo. "Os nossos custos de vida são menores e isso permitiu que gastássemos o nosso dinheiro em coisas que realmente importam como viajar", afirmou Akahi Ricardo. Camila e o marido conheceram-se em 2005 e casaram três anos depois. Foi na América do Sul, em 2008, que descobriram esta nova forma de sobreviver. Eram vegetarianos e mudaram a dieta para a ingestão de frutas, apenas. Depois estiveram vários dias a consumir apenas "ar" e água em pouca quantidade. Agora, Camila refere que come porque tem de comer, não porque está com fome. "Não me lembro dessa sensação", conta.

Lá está, “Casal com dois filhos come apenas três vezes por semana… alimentados pela energia do universo… esquecer a fome… dar cursos de como viver sem comer… consumir apenas ar e água em pouca quantidade…”. Estes tipos são no mínimo uns visionários… Ora vejam! Além de comerem só três vezes por semana, a sua dieta baseia-se em energia, ar e muito pouca água. Mais, esquecem a fome e ainda ensinam como fazê-lo!

Estes iluminados além de espalhar o horror no seio da indústria dos produtos milagrosos para dietas, provavelmente serão agraciados com um par de semanas de férias clinicas. Calhando... em vez de visionários, são só parvos!