quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O dinheiro não é tudo

O dinheiro não é tudo

Desde rapazola que detesto tudo aquilo que dá trabalho. Afinal, se algo é difícil, é porque não vale a pena ser feito! Concluindo, resulta sempre melhor ver coisas, que fazê-las. Esta antipatia pelo trabalho surgiu logo na primária, por ocasião do acolhimento de umas reguadas, consequência do erro ortográfico cometido a escrever a palavra trabalho. Daí em diante, só de pensar em tal coisa, desenvolvo imediatamente urticária.
Todavia, findados os estudos e fortemente coagido por familiares, lá tive de ir vergar a mola. Teve de ser! Mas, até enveredar por tão penoso caminho, escutei de tudo! Ele foram conselhos de que sem trabalho não se consegue nada, que trabalhar dá saúde e faz crescer, eu sei lá... Entre as frases feitas, usadas para me impingirem tal suplício, a mais rebuscada de todas era “O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário”. Ora, o problema é que no mesmo manual, trabalho é também sinónimo de fadiga. Ou seja, é de evitar!
Contudo, na falta de alternativa, tive mesmo de ceder. Para ajudar na escolha da actividade, recorri a um profissional da área da psicologia. Após detalhado estudo vocacional1, o clínico haveria de concluir que além da ausência de qualquer vocação, o meu ser juntava múltiplas personalidades. Ora, como nós não concordamos com tal diagnóstico, resolvemos decidir por nós próprios!

1 Até uns testes fiz… acho que se chamavam pirotécnicos.

A preferência acabaria por recair sobre o sector alimentar. Vai daí, fiz carreira como provador de comida para animais. Até nem ganhava mal, não fora metade do valor auferido ser imediatamente canalizado para impostos. Ainda assim, nunca passava fome. Não era mau!
Nas viagens para o trabalho, volta e meia, passava por mim um veículo preto topo de gama. Nessa altura, quase imediatamente, surgia-me no pensamento: “que tipo trabalhador… até deve trabalhar aos sábados à tarde para conseguir ter um carro assim!”. Todavia, para escapar à própria frustração, obrigava-me a acrescentar a tal reflexão o seguinte: “Sou pobre, mas honrado. O dinheiro não é tudo!”. Afinal de contas, o dinheiro não é mesmo tudo, há também, por exemplo, o ouro, os diamantes e os bens.
Ainda assim, movido pela ambição de mercar um carro, cujos pneus fossem mais caros que o atacado do actual, resolvi acumular outro emprego. Comecei a trabalhar todos os dias do mês, incluindo sábados à tarde. Finalmente, estavam reunidas as condições para a compra.
Aconselhado por vários, desloquei-me ao afamado stand do Bolacha. Nessa superfície comercial, era vasto o leque de viaturas… quase quatro. Mais, estas eram todas da máxima confiança. De facto, o mestre Bolacha apenas transacionava veículos cujos anteriores proprietários fossem, ou tivessem sido, padres ou professoras.
Escolhida a viatura, foi só tratar do crédito2. A opção não poderia ter sido mais feliz, além da cor, preto fosco3, do autocolante no vidro traseiro a dizer Alpine, o dito cujo até rádio tinha!

2 Este por sinal muito jeitoso. A soma dos dois vencimentos, quase que chegava para a mensalidade.
3 Questionado sobre a falta de brilho da cor, o mestre Bolacha garantiu que as pinturas modernas eram assim, isto para evitar ficarem ressequidas pelo sol.

Todavia, preocupações ambientais e, alguns detalhes relacionados com a liquidação da mensalidade do crédito, ditaram a prematura retoma da viatura. Hoje, a bem da saúde e do ambiente, desloco-me a pé. Na verdade, já antes o fazia amiúdas vezes. Para isso, contribuíam as constantes deslocações à oficina, motivadas pelas indispensáveis afinações, nomeadamente, a nível do funcionar.
Liberto de encargos, resolvi abandonar as ocupações assalariadas e candidatar-me a uma vaga no fundo de desemprego. Finalmente, passaria a receber o vencimento a tempo e horas. Por outro lado, o montante passaria a ser compatível com as responsabilidades.
Beneficiando do tempo livre, resolvi frequentar as formações disponibilizadas pelo referido centro. A título de exemplo, recordo um dos cursos que frequentei, intitulado: caça e pesca, uma abordagem empreendedora. Além de engrossar o nível de aptidões, mais importante ainda, era o facto de frequentar tais cursos dava direito a subsídio de repasto.
Enfim, não fora pelas constantes propostas de trabalho e, provavelmente, este teria sido o período mais proveitoso da minha vida. De facto, sempre que surgia uma vaga para um qualquer cargo compatível com as habilitações, era um sobressalto. Isto, porque alguns dos potenciais empregadores, insistiam que dispunha das condições necessárias e suficientes para o cargo. Ainda assim, embora por vezes a custo, lá os fui demovendo de tal ideia peregrina
Com o decorrer do tempo, percebi que este era o meu verdadeiro talento, viver de subsídios! A habilidade para a coisa era tanta que, após findado o subsídio de desemprego, resolvi candidatar-me a um rendimento mínimo qualquer coisa.
Além disso, preocupado com o envelhecimento da população e, talvez também com o valor do abono de família, procurei ampliar o agregado familiar. Todavia, esta inquietação com as questões demográficas haveriam de resultar em problemas de espaço, no luxuoso lar de uma assoalhada. Questão essa, contudo, prontamente resolvida através da candidatura a uma habitação social. Actualmente, lá em casa oito frequentam a escola e dez vivem de subsídios. Afinal, a formação é uma aposta de futuro, desde que sustentada por bolsas, claro está!

Agora, enquanto aguardo pela reforma, decidi tornar-me investidor, área das raspadinhas. Além de não depender das flutuações do mercado, a negociação de tais títulos é feita no momento. Ainda um destes dias, apenas com dois euros, obtive um retorno imediato de 20 minis. E assim vou levando a vida…