quinta-feira, 9 de junho de 2016

A estudar também eu...


A estudar também eu…

Aos 6 anos de idade, já honoris causa em vadiagem, fui incorporado na escola primária[1]. Tal instituição tinha costumes que, no mínimo, podemos classificar de estranhos. Exemplo disso eram os horários a cumprir, os trabalhos de casa, enfim aquilo a que hoje chamamos de responsabilidades.
No que toca à arquitectura, a escola padecia de uma enorme falta de gosto. Imagine-se que na época, as primárias eram todas semelhantes. Além disso, os materiais utilizados na sua construção não incluíam madeiras nobres nem tão pouco ladrilhos especiais de corrida. Então e o mobiliário! Além de ser igual em todas elas, não era de autor. Um escândalo!
Na altura senti alguma nostalgia. Tinha acabado a pré-primária! Como melhor e, único, utente da instituição, a classificação alcançada nas actividades, não raras vezes, roçava os vinte valores ou melhor, o hematoma. Uma mãe não perdoa… Contudo, na primária a derradeira classificação passaria a resultar da apreciação do consórcio mãe-professora. Com esforço, lá mantive a média. Sem falsas modéstias, mas querendo, poderia mesmo ter alcançado outros patamares. Ainda assim, não fui ambicioso. Senão reparem. Uns bonos caseiros estavam à escassa distância de uma singela referência a um puxão de orelhas da professora. Sim, na época os professores podiam puxar as orelhas, sem que daí resulta-se a instauração de um processo disciplinar por agressão[2]. Enfim, de facto, eles quase nem nos tocavam… apenas direcionavam a bela da cana ou a régua de madeira.
No que toca ao ensino, este era algo estranho. Além de termos que aprender a ler e a escrever português, reparem bem, podíamos ser penalizados por cometer erros ortográficos. Então e a tabuada! Era obrigatório sabê-la de cor, de trás para a frente e vice-versa. Afinal, para que servem as calculadoras! Mesmo assim, foram anos de glória. Esqueçamos lá as férias passadas de castigo.
Movo agora o sentimento que em dois momentos, deveria ter dado por concluído o não menos que brilhante percurso académico. Findada a 4ª classe, seria o primeiro deles. Afinal já escrevia o nome completo sem olhar para a cédula[3] e, fazia contas sem contar pelos dedos. O nível de conhecimento era tal que já sabia o nome de todos os distritos do País e que o rio Tejo nasce em Espanha, enfim gramática.
Na época, na posse de tais habilitações literárias poderia ter chegado longe. Só para terem uma noção, comparo com os tempos actuais. Então teria sido, por exemplo, caixeiro, exactamente o mesmo que hoje, com sorte, espera um grosso número de licenciados. Afinal, o ensino primário da altura era puxadinho!
Porém, lá continuei a estudar, ou melhor, a passear os livros. A propósito de livros, imaginem que na época a sua validade era superior a um ano lectivo. A justificação para tal é que existiam elevadas preocupações ambientais, ou seja, nada de abater árvores para fazer livros. A política era estimá-los. Logo, o primeiro passo após a sua compra era usar umas quaisquer folhas, de padrão sempre a roçar o bom gosto[4], para forrar a capa dos ditos.
Além disso, as matérias eram completamente diferentes das agora abordadas. Não existia, por exemplo, a extra mundana e contínua evolução das regras de aritmética, rios a nascer teimosamente por todo lado e a gramática em constante mutação. Por estas e por outras, temos hoje de sacrificar a ecologia a bem de uma aprendizagem que queremos actualizada.
No que toca à vida académica, no ciclo[5] as melhoras foram poucas. Se na primária era castigado, nos anos seguintes continuei a sê-lo, mas isto só para manter o ritmo! Umas vezes à rasca, outras como que por milagre, lá fui avançado nos anos lectivos. Por ser um pouco gabarolas, tenho de fazer aqui um aparte. Na altura, e vejam bem a injustiça da coisa, era possível e às vezes bastante provável, reprovar o ano. Isso mesmo, repetir o ano escolar! Imagine-se, a idade não contava para nada! Felizmente, esse aspecto foi corrigido para não forçar perdas de tempo a ninguém. Afinal chega a ser desumano impor um número de classificações positivas a tantas disciplinas diferentes. Resumindo, sou o maior! Tendo tido a possibilidade de reprovar, isso nunca sucedeu.
Ainda assim, algumas foram as vezes em que a sorte não me bafejou. Em fase já avançada da adolescência, propícia a adquirir vícios, escapei aos escuteiros e às drogas, mas fatalmente também às associações de estudantes. Neste domínio, foi determinante a falta de espírito combativo e revolucionário, necessário para agitar bandeiras em manifs. Consequência disso não participei em importantes lutas, como por exemplo, a pela abolição da Prova Geral de Acesso ao Ensino Superior (PGA), esse teste complicado. Eu cá adorei a dita, para além de não saber o que estudar, logo não o fiz, bastava estar a horas, embora de madrugada[6], armado com uma esferográfica.
Contudo, entendo agora que se tivesse participado nessa luta, ou outras do mesmo calibre, estaria agora provavelmente agarrado a uma vida bastante desagradável. Talvez fosse dirigente de uma força política, ou pior, deputado ou quem sabe até ministro. Obrigado aos poderes superiores que me pouparam a tão penoso sofrimento. Afinal, que mais desumano haverá que ser eleito por um distrito, muitas vezes só pisado em viagem de férias, ou a caminho delas, e conseguir compreender e revindicar os seus direitos, enfim um inferno! Depois, teria de viver em Lisboa auferindo de um miserável subsídio de deslocação. Mas pior ainda, seria que prévias e profundas convicções pessoais, afinal, não passarem de coisas de momento. Felizmente passei ao lado de tudo isso.
Bom, voltando à vida académica, assumo novo erro crasso. Definitivamente, o abandono da carreira académica deveria ter acontecido lá pelo 9º ano. Sim, haveria sido o momento certo! Nessa situação, teria angariado uns cobres[7] enquanto aguardava pela oportunidade certa para prosseguir estudos. Contudo, estou ciente que a dúvida surgiria: novas oportunidades ou maiores de 23? Que dilema! Contar a história da minha vida ou ir para um curso de engenharia, sem nunca antes ter tentado resolver uma equação de qualquer grau ou degrau, sei lá. Ainda assim, com alguma frieza, julgo que escolheria o trajecto correcto: novas oportunidades, seguido de um curso numa Universidade qualquer.
Lá prossegui o secundário e, sorte à parte, lá conseguiu finalizar um curso técnico-profissional. Sim, um daqueles extintos que agora parece que são úteis para actuar sobre a profissionalização. Agora vejam bem, isto sim, foi uma nova oportunidade, desenrasquei uma vaga no Ensino Politécnico. Foi uma sorte[8], dado que essa época antecedeu a do surgimento massivo dos mesmos, que depressa se assemelhou à dos tortulhos. Notem que disse Ensino Politécnico e não superior, porque se repararem, hoje fala-se muitas das vezes de Ensino Superior Universitário e de Ensino Politécnico. Provavelmente, os ensinamentos de um mesmo curso de engenharia são diferentes. Melhor, temos, por exemplo, o Engenheiro Superior Universitário e o Engenheiro Politécnico.
Por outro lado, relembro que então as engenharias eram meia dúzia, hoje são umas seis dúzias. Lá está, as engenharias sofrem da mesma moléstia das matérias dos livros escolares, mutação constante! Só quem não quer, é que não entende a necessidade de existirem algumas engenharias, como por exemplo, a Engenharia das árvores de casca castanha, ramo dos eucaliptos e afins. Ora sigam o raciocínio, mutação das matérias, mais livros, mais papel, logo alguém tem de se preocupar com estes assuntos.
Bom, sabe-se lá como, mas sem equivalências, lá obtive o canudo!




[1] Actualmente, por ser mais chique, tais estabelecimentos são designados de escolas do 1º ciclo.
[2] Os ajustes de contas, entre progenitores e professores, não eram praticados. Ao invés, ambos podiam afiambrar os gaiatos.
[3] O bilhete de identidade só era necessário para ingressar no ciclo. Ou, como se chama agora, 2º ciclo.
[4] Folhas com padrão de embrulho de Natal eram um clássico.
[5] Agora designado de 2º ciclo.
[6] Lá por essas 10 horas.
[7] Não confundir com cobre, proveniente de outras fontes.
[8] O facto de ser calão, não contribuía em nada para as classificações obtidas.