quinta-feira, 2 de junho de 2016

Urbanização da lua


Urbanização da lua



O que vou relatar é com toda a certeza, a mais grandiosa façanha dos Tugas. Esta estória, além de linda, está repleta de heroísmo e superação. A imponência é tal, que quase enxovalha as andanças das caravelas pelos mares. Ela foi, nem mais nem menos, a corrida pela urbanização da lua!

Na origem desta épica aventura, estiveram as crescentes disputas entre dois concelhos limítrofes, situados na Beira Interior. A eterna rivalidade entre as duas potências regionais, uma situada na serra da Gardunha e a outra na da Estrela, surgiu durante a homenagem ao Santo padroeiro. O dito cujo, era agraciado com festejos simultâneos nos dois lugares. Todavia, em comum, apenas se realizava a procissão em sua honra.

No alvorar do dia 7 de Janeiro de 1969, para engrandecer a respectiva festa, cada povoação desatou a lançar foguetes para os céus, como se não houvesse amanhã. Tão estrondosa disputa, apenas viria a findar quando um foguete tresmalhado arrebentou com o santo padroeiro, já no andor para o passeio religioso da tarde. Além da descompostura do prior, como castigo tiveram que alombar com o Febras, entretanto empossado para substituir o santo Pantaleão no andor. Consequência do peso do substituto, foi preciso recorrer a substituições dos carregadores durante o cortejo. A necessidade de força bruta foi tal, que até o Tó paspalhão[1] foi convidado a participar. A integração de tal personagem, em qualquer tipo de actividade, garantia um risco quase natural da coisa correr mal e, às vezes, mesmo muito mal.

Todavia, a disputa entre as duas freguesias haveria de ser elevada aos píncaros, aquando de uma acesa discussão entre o Anacleto e o Quim-da-vaca, naturais da Estrela e Gardunha, respectivamente. A conversa primeira, acerca dos enfeites do Pingas, nomeadamente a nível da cabeça, rapidamente resvalou para o bairrismo. Conversa, puxa conversa, e o Quim atira: ”a Gardunha é tão grande que até se vê da lua!”. Vai daí, o Anacleto, conhecido por toda a região pelas suas amplificações, arremata: “pois, isso não é nada! A Estrela por ser tão alta, quase que toca na lua”. Estava a contenda quase a descambar para a parte prática, designadamente a nível da aplicação de umas arrochadas, quando o Cara-linda, filósofo de taberna, argumenta: “só há uma maneira de descobrir quem tem razão, é indo lá ver!”. Vai daí, sem estar de modas, o Anacleto declara: “não é tarde, nem é cedo! Amanhã começamos a tratar disso!”. Entretanto, o Prejudicado que assistira à discussão atirou: “já que lá vão, podiam era aproveitar para dividir aquilo em talhões para depois vender aos chineses”.

Este ambicioso projecto, acabaria por potenciar o não menos que improvável, esforço conjunto das duas populações. De facto, unidos por um objectivo comum, conseguiram patrocinios de quase duzentos contos e a colaboração pro bono do Candeias, cientista de foguetes[2].

Decorreram quatro meses, até que fosse possível anunciar o fim da construção da viatura espacial. Em Junho, tudo parecia a postos. Faltava apenas colar os autocolantes dos patrocinadores. Entre eles, sobressaia o slogan do Stand Bolacha: “Stand Bolacha, o único com quase-novos para lunáticos”.

Infelizmente, problemas com o equipamento de escrita, nomeadamente com uma caneta que escrevesse na lua, ditaram o adiar do lançamento. Após longa pesquisa, a solução para o problema acabaria por ser lançada pelo Alfredo, gaiato esguio de cinco anos, que sugeriu a utilização de um lápis de cera. Finalmente, a rampa de lançamento, a viatura espacial, o lápis de cera e o atado de foguetes propulsores, estavam a postos.

De acordo com o diário de bordo, no dia 16 de Julho de 1969 os cosmonautas, Nelo Ambrósio, Eduardo Alvim e Micael Costa, amontados na ponta do foguete, Papalvo 11, lá se fizeram ao caminho. Por ser Julho, resolveram ir pela fresquinha, partiram às seis da matina. Era para ter sido às cinco, mas teve de ser adiado porque na véspera o Alvim embriagou-se em virtude de ter recebido a conta da eletricidade.

Enquanto os bravos marinheiros do seculo XX se faziam ao céu, o pessoal de terra procurava controlar o incendio provocado pelos foguetes na rampa de lançamento, construída com fardos de palha.

Entretanto, a partir da sala de controlo, instalada num canto da tasca do Salsa, eram estabelecidas as primeiras comunicações com o veículo voador. Embora algo estranho, considerando o estado da tecnologia e a enorme distância entre os intervenientes, o facto é que as comunicações eram em tempo real. Aliás, na conversa com o presidente da junta, a voz do Nelo até soava melhor que ao vivo. Bom, o que se passou foi que o Hipólito fez não sei o quê ao telefone… Enquanto os cosmonautas rumavam ao satélite, o Ti Salsa ia administrando uns penaltis de tinto para a empurrar os ovos verdes e as pataniscas.

Finalmente, ouviu-se o anúncio da chegada à lua. O local definido para poisar o módulo lunar era o Mar da Tranquilidade, mas os destemidos cosmonautas, Ambrósio e Alvim, decidiram alunar num vale glaciar. Esta decisão deveu-se ao facto desse local ser bastante parecido com um existente na Serra da Estrela. Foi então que Nelo Ambrósio fez história ao pisar pela primeira vez solo lunar. As suas primeiras palavras foram: ”Merda! Molhei os pés”. Apesar do espaço livre para poisarem, tinham-no feito nas bordas de uma charca. Calçadas as galochas, lá iniciaram a exploração de tão inóspito local.

Recolhidas umas amostras de plantas[3], tirados uns retratos para mais tarde recordar e desfraldada ao vento a bandeira do rancho folclórico, passaram a tratar do assunto primeiro da expedição: qual das duas serras seria a maior! Foi então que a surpresa tomou conta de suas mentes. Nem Estrela nem Gardunha, não se via era coisa nenhuma!

Quando tudo parecia perdido, com a missão condenada ao fracasso, surgiu a clarividência do comandante Nelo: “Calhando não se enxerga nada por estarmos do lado de baixo da lua”. Ao que acrescentou: “talvez até seja melhor assim! Para evitarmos mais desavenças, dizemos que as duas serras são iguais e pronto!” Posto isto, comeram a bucha e foram espetar estacas para dividir a lua em talhões. Urbanizada a coisa, lá se fizeram ao caminho de regresso a casa.

Após aterrar no Zêzere, lá para os lados da Panasqueira, foram recolhidos por uma ambulância. Isto porque foram proibidos de entrar na camioneta-da-carreira, não por estarem molhados, mas porque afirmavam que tinham chegado da lua. Neste contexto, o motorista, à cautela, ligou para o 112 indicando o local onde se encontravam três indivíduos aparentando ter escapado de algum centro psiquiátrico. Com isto tudo, a festa de recepção teve de ser adiada, pois a medicação entretanto administrada aos valentes cosmonautas deixou-os a babar.

De facto, a terapêutica aplicada foi de tal forma agressiva que ainda hoje, os três apresentam sequelas. O Alvim usa uma boina da grande guerra e cavou uma trincheira em volta de casa. O comandante Nelo dá palestras sobre a experiência vivida quando foi raptado por extraterrestres. Finalmente, sobre o Micael as últimas notícias vieram do Algarve, para onde emigrou pouco tempo depois. Actualmente é conhecido por piriscas, alcunha devida ao hábito de apanhar pontas de cigarro do chão para fumar.



[1] De sua graça António Oliveira, todavia, desde gaiato passou a ser conhecido em toda a freguesia e arredores por Tó paspalhão. Tal alcunha, estabelecida pelo próprio pai, surgiu aquando de uma conversa em que o Tó o tentava convencer de que era o melhor aluno da escola. Como resposta o progenitor apenas disse: “Tó és mesmo paspalhão!”.
[2] Trabalhou na pirotecnia lá da terra até ao seu desmantelamento, nomeadamente ao nível das paredes e telhado. Acerca deste episódio, o Candeias jura a pés-juntos que não estava a fumar enquanto fazia foguetes.
[3] Evitaram recolher pedras, já que é coisa que não falta na Estrela e Gardunha.