quinta-feira, 16 de junho de 2016

O empreendedor


O empreendedor

Terminados os estudos surgiu o dilema: trabalhar por conta de outrem ou criar o próprio emprego? Felizmente, na tomada de decisão imperou o bom senso, ou seja, trabalhar prontamente saiu da equação. O destino impingiu-me o mundo dos negócios; ramo de actividade todo e qualquer com subsídio. Consequência disso, ainda hoje não tenho possibilidades para possuir carro próprio. Sou forçado a deslocar-me num topo de gama da firma, pois o ordenado mínimo não dá para mais. Uma tristeza!
Contudo, a estreia nos empreendimentos não foi nada fácil. Não fora a minha tenacidade, espirito combativo e um pai abonado, talvez tivesse mesmo desistido. Apreciemos o exemplo. O projecto pioneiro tinha por base uma ideia cuja genialidade era, no mínimo, comparável à descoberta da roda. A dita, consistia na distribuição via wireless de energia eléctrica trifásica! Todavia, superiores interesses e, quiçá, pontuais electrocuções rapidamente transformaram o ovo de Colombo em fracasso.
Posteriormente, deparei-me com um autêntico diamante em bruto. A agricultura! A escolha por este ramo de negócio não poderia ter sido mais feliz! Logo para começar, sem mais requisitos, a minha juventude foi alargada até aos 45 anos[1]. Além disso, permitiu potenciar os profundos saberes já detidos na área[2].
Após candidatura a uns trocos a fundo perdido, lá consegui financiamento para desenraizar umas oliveiras e adquirir um jipe. Embora com o orçamento já algo limitado, investi igualmente num tractorzeco com 600 cavalos, ar condicionado e orientação por satélite. No entanto, o potencial do tractor viria a revelar-se algo limitado, uma vez que não sobrou capital para adquirir alguns extras, nomeadamente aqueles que habitualmente se penduram na sua traseira, alfaias e não sei mais o quê... Mesmo assim, o dito não deixou de ser uma mais-valia para o negócio. Efectivamente, os 300 cavalos do jipe também gostavam da palha[3], gentilmente facilitada para alimentar os respectivos do tractor.
Seguindo o excepcional projeto agrícola, foram plantados coqueiros no lugar das oliveiras. Estranhamente, os ditos não se acostumaram aos ares da Beira Interior. Ainda hoje, estou perfeitamente convencido que o problema foram as alterações climáticas, nomeadamente, o degelo na Antártida. Grandes males… grandes remédios! Com novo subsídio arranquei os coqueiros, plantei oliveiras e com o remanescente comprei um modesto apartamento no Algarve.
Enquanto aguardava que as oliveiras dessem fruto, resolvi alargar o negócio ao gado ligeiro. Após detalhada análise dos amparos financeiros, a opção recaiu sobre ovelhas e cabras. Para desenvolver competências na área, frequentei um workshop sobre a dita rapaziada. Foi muito proveitoso, após 20 horas de formação já sabia distinguir na perfeição as cabras das ovelhas e dos cães. Também não seria de esperar outra coisa, afinal o formador para além do sólido conhecimento teórico acerca dos animais de quatro patas, costumava visitar um avô que em tempos tinha tido uma cabra.
No entanto, mesmo na posse das competências necessárias para lidar com ovelhas e cabras, de toda e qualquer espécie, surgiram algumas dificuldades devido à natureza estranha dos seus comportamentos. Estes animais, além de madrugadores, teimavam em comer todos os dias[4]. Mais, na hora da ordenha alguns havia que não contribuíam com leite. E pior, ficavam mesmo bastante agressivos. Para resolver o problema, quem não cooperava na ordenha era abatido. Curiosamente, liquidado o grupo dos teimosos findou a procriação por parte das restantes. Deve ter sido do desgosto…
Por outro lado, o abate dos rebeldes levantou ainda outro problema: confusão na contagem dos animais para efeitos do subsídio. Para facilitar o trabalho do fiscal, resolvi desenvolver e implementar um programa tipo Erasmus, para ovelhas. O intercâmbio, além de promover o bom relacionamento entre a vizinhança proporcionava à bicharada uma visão além curral. Foi um sucesso! As cabras e ovelhas nem pareciam as mesmas. Efectivamente, algumas nem o eram, uma vez que convenci um dos vizinhos de que o fiscal lhe tinha confiscado parte das ovelhas.
Entretanto, as oliveiras lá cresceram e começaram a dar fruto. Por esse motivo, surgiu a necessidade de contratar um entendido na matéria. Dirigi-me ao centro de emprego e solicitei um profissional encartado no domínio das azeitonas. Os referidos serviços, após rigoroso processo de selecção, lá recomendaram um candidato. Este, que por acaso era primo de uma amiga da funcionária que o indicou, era no mínimo um visionário. Só para terem uma noção do seu nível de conhecimento, assim sem mais, sugeriu que se esmagassem as azeitonas para fazer azeite.
No entanto, essa coisa de fazer azeite implicava a colheita da azeitona e, pior, não existia subsídio para tal. A solução foi requerer um subsídio para arrancar as oliveiras e, posteriormente, vendê-las para lenha. Mais, peguei no tractor, nas cabras e ovelhas e vendi tudo por atacado.
Depois disso, visando alargar horizontes, fui para o estrageiro. Nem mais, passei a ser um cérebro empreendedor em fuga! Todavia, as saudades e, ultrapassado que estava o período em que arriscaria ser condenado por fraude fiscal, acabaram por ditar o regresso! Nem a propósito, viria a ser convidado para integrar um novo desafio. Nem poderia ter sido de outra forma. Afinal, eram já sólidas as competências adquiridas, não apenas na pátria mas também além-fronteiras, no domínio das insolvências. Enfim, fui convidado para administrador de uma empresa pública. Área de trafegueio: energia, nomeadamente a do retalho de combustíveis. Esse viria a ser o culminar de um sonho de infância[5]
Todavia, o auge nos negócios, apenas viria a ser alcançado mais tarde e, seria no mundo das finanças. A arte da negociação de títulos viria a revelar-se o meu real talento. Como que por obra divina, fui abençoado com capacidades de previsão, fosse lá qual fosse o ramo de negócio. Passei ainda a dispor de roliços montantes de capital, cedidos pela banca, sem que para isso tivesse que apresentar qualquer tipo de garantia. Tudo seguia pelo melhor, não fosse ter atingido os 45 anos. Pois é, chegara o momento da aposentação! Além disso, o banco que amavelmente patrocinava o negócio, padecia não sei do quê. Ao que parece, o achaque era o mesmo do queijo suíço, buracos!
Já aposentado, estabeleci-me como comentador, na radio, televisão e onde quer que fosse, desde que ressarcido! Os temas abordados nos comentários, limitados à minha humilde esfera de conhecimentos, iam desde o padrão de tecidos para cortinados de cozinha até misseis balísticos.




[1] Idade até à qual se é considerado jovem agricultor.
[2] Desde tenra idade que semeava ervas aromáticas em floreiras.
[3] Na época o gasóleo agrícola ainda não era tingido de verde.
[4] Incluindo domingos e feriados.
[5] Em catraio gostava de brincava às bombas de gasolina.